Por Élio A. Martins*
Recentemente a Unicamp divulgou a pesquisa “Avaliação do Impacto Econômico da Proibição do uso do Amianto na Construção Civil no Brasil” como contraponto ao estudo socioeconômico “O Papel dos Produtos de Amianto na Cadeia da Construção Civil”, em 2009, pela Fundação Getúlio Vargas, a pedido da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. As conclusões são divergentes e, mais uma vez, nos vemos em meio a discussões em torno do banimento do amianto no Brasil. O que fica claro nesse novo estudo é a manipulação da informação para traçar um cenário artificial, em um contexto de disputa de mercado.
A começar, a pesquisa da Unicamp parte de uma base de dados desatualizada que chega até 2007, sem levar em consideração as mudanças dos últimos anos e sem buscar dados recentes junto a entidades que poderiam ajudar a traçar o cenário deste mercado.
O objetivo da pesquisa é “demonstrar” que a indústria tem capacidade de substituir o amianto em seus produtos de fibrocimento, sem que haja perda para a população ou para a cadeia produtiva. Esta premissa não corresponde à realidade.
A primeira questão que levanto é que a contratação da pesquisa da Unicamp e o fornecimento de boa parte dos dados foram feitos pela Abifibro – entidade que tem uma única empresa de fibrocimento associada, a Brasilit e que, portanto, não representa a cadeia produtiva. A maior parte do comparativo de preços foi feita tomando como base os valores das telhas de amianto da Eternit e as telhas sem amianto da Brasilit. Os preços foram coletados também nas lojas Telha Norte. A Brasilit e a Telha Norte pertencem ao mesmo grupo econômico – a Saint Gobain.
Outro ponto importante a ser observado é que a própria Brasilit admite no estudo ter um custo 10% maior em sua produção de telhas sem amianto. No entanto, o balcão da loja vende sem diferença de preço, o que leva a crer que os valores são subsidiados – gerando uma falsa visão de que há como produzir sem amianto mantendo o mesmo preço no produto final.
Já o estudo da FGV demonstra que, na realidade, o aumento do custo para fabricação de telhas sem amianto e, consequentemente, o preço a ser praticado nas lojas seria 40% mais alto. A diferença de 10% para 40% ocorre porque a Brasilit produz a própria fibra sintética (Polipropileno), absorvendo apenas o custo de produção da fibra. Já os demais fabricantes de fibrocimento teriam de adquiri-las da própria Brasilit ou importá-las (de PVA – Polivinil álcool) da China e do Japão.
O estudo acusa o Grupo Eternit de ter o monopólio na venda de amianto para o mercado interno, se contradizendo, ao afirmar que as demais empresas que utilizam o crisotila buscam diversificar o fornecedor ao importar o mineral. Ora, se parte importa o amianto crisotila, a verdade é que não há monopólio por parte da Sama. Essa premissa também poderia valer para a Brasilit, que detém a o monopólio da produção da fibra de Polipropileno para utilização no fibrocimento no País.
Uma terceira questão que precisa ser levantada é a qualidade do produto com fibra sintética. O estudo da Unicamp cita outras fibras como a Pan – que já foi testada pela cadeia produtiva sem, no entanto, obter boa performance; e as fibras de PVA – as que mais se adequariam às necessidades do mercado brasileiro. No entanto, nenhuma delas, para o portfólio de produtos utilizados no País, oferece produtos com qualidade comprovada. Isso quem diz é o consumidor que, no ponto de venda, prefere as telhas com amianto.
Diante de todos esses fatos, pergunto: por que tirar a autossuficiência brasileira na produção de telhas com amianto e deixar o mercado dependente de fornecedores internacionais, desenvolvendo, desta forma, produtos de desempenho inferior, com custo elevado e riscos à saúde indeterminado?
A pesquisa da Unicamp traz outras informações equivocadas. Por exemplo: que quatro fabricantes teriam deixado de produzir com amianto em 2010. Esse dado não procede. A verdade é que apenas uma empresa (Decorlit) realmente substituiu o amianto e viu sua participação de mercado cair de 2% para 0,5%. As demais empresas citadas continuam a operar normalmente.
Outro erro é citar a Eternit como a uma empresa de origem belga. A verdade é que o grupo suíço Amindus fundou a Eternit no Brasil em 1940, e, por volta de 1990, vendeu a maioria de suas ações à Brasilit, do grupo francês Saint Gobain, que também viabilizou investimentos na mineradora Sama na década de 90. Eternit e Brasilit já eram sócios na Sama desde 1967. O grupo francês saiu da sociedade na mineração em 1997, mas permaneceu atuando com amianto (mesmo após anunciar sua saída deste mercado) por meio de sua participação no capital da Eternit, até 2003. A Brasilit vendeu, por fim, suas ações na Eternit a acionistas brasileiros. Essa informação é omitida na pesquisa e preciso aqui fazer essa correção: a Eternit jamais pertenceu a um grupo belga, teve a Saint Gobain como controladora, hoje maior interessada no banimento do amianto, uma vez que se coloca como produtora de fibra sintética.
Após todas essas considerações, deixo claro aqui que ao defender o uso seguro do amianto crisotila, o faço no interesse das empresas que presido, do País, e da população de baixa renda, uma vez que o produto, pelo seu custo x benefício, tem função social.
* Élio A. Martins é presidente do Grupo Eternit. Também é membro do COSEMA – Conselho Superior de Meio Ambiente da FIESP, vice-presidente do SINPROCIM – Sindicato da Indústria de Produtos de Cimento do Estado de São Paulo, diretor do IBC – Instituto Brasileiro do Crisotila e membro do LIDE – Grupo de Líderes Empresariais.
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